Imagine a cena: Ana vai a uma festa com Flávio, seu marido, e lá encontra suas amigas de infância, que acham Flávio bem-humorado e simpático. Entre ouvidos, Ana logo tem a defesa: "Ele só é assim na rua. Em casa, vive de cara feia", queixa-se. Embora a história contada seja fictícia, ela pode ser bastante parecida com o dia-a-dia de muitos casais que se surpreendem com a atitude do cônjuge fora de casa.
Para a psicóloga catarinense Onete Ramos, autora do livro "Ah, o amor", esses comportamentos diferentes longe da família são resultado do excesso de mágoas e ressentimentos que um vai causando ao outro ao longo do tempo. Segundo ela, quando estamos apaixonados, mostramos ao companheiro o nosso melhor lado. "Potencializamos as qualidades, fechamos os olhos para os defeitos e acreditamos que o relacionamento vai suprir todas as nossas carências e expectativas", destaca.
Ledo engano. Com o tempo, pontua Onete, os lados sombrios vão se revelando e começam as frustrações, já que ninguém, por melhor que seja, conseguirá atender todos os nossos desejos. Decepções e ressentimentos reprimidos vão ganhando espaço e minando, aos poucos, a relação. "Conclusão: o melhor lado deixamos para a rua, para os outros, em relacionamentos ainda não tão minados", explica a especialista.
Onete lembra ainda que outra atitude comum é descarregar em casa os problemas do dia. É o marido, por exemplo, que leva para a família a bronca do chefe. É a esposa que chega em casa contrariada com a acomodação do colega de trabalho. "Ambos acabam se fechando em seus problemas, e o diálogo vai se esvaindo aos poucos. Com isso, os ambientes alheios acabam sendo o refúgio, o local aonde conseguem ser eles mesmos ", pontua.
Para a psicóloga, a casa representa o ninho do amor, o lugar aonde o casal deve se entregar e ser acolhido. Não pode representar um ambiente de ameaça e agressões. Para isso, porém, é necessário que ambos se permitam verbalizar - algo inerente ao ser humano - de uma maneira comedida e assertiva.
Também é preciso ter consciência de que o outro não será capaz de nos atender em tudo, devido às próprias limitações que todos possuímos. "É importante que o casal reveja todas as mágoas e que cada um possa falar dos melindres que existem por traz das situações que o agredido possa perdoar e que o agressor possa não repetir as atitudes que provocam dor no outro", aconselha. |
0 comentários:
Postar um comentário